Karin Volobuef – UNESP - Araraquara
Um Weihnachten diese grüne Palmen- und Orangenwelt! (Chamisso, 1899b, p. 50)
Adelbert von Chamisso (1781-1838), aliás Louis Charles Adelaide de Chamisso, era filho de aristocratas franceses fugidos da Revolução de 1789. Considerado hoje um dos principais escritores românticos da Alemanha, Chamisso só aprendeu o idioma alemão aos quinze anos de idade, quando exilado em Berlim. Em sua formação, foi fundamental a leitura dos iluministas franceses, especialmente Rousseau - então muito em voga em Berlim - além das obras de Schiller. Ao longo dessas leituras foi-se imbuindo dos valores da burguesia, o que criou um hiato entre ele e sua classe social e também um distanciamento de seus familiares: quando em 1801 Napoleão permitiu à família o retorno à França, Chamisso optou por permanecer na Alemanha enquanto os seus regressavam à antiga pátria. Depois dessa separação, sua ligação com o país adotivo assume dimensões cada vez mais profundas: profissionalmente, estava a serviço do exército prussiano (desde 1898 integrava um regimento berlinense); espiritualmente, desde 1803 assiste às conferências de August Wilhelm Schlegel sobre literatura. Além disso, juntamente com Julius EduardHitzig, Karl August Varnhagen e outros, Chamisso funda o “Nordsternbund” que, entre 1804 e 1806, edita a revista Musenalmanach, repositório de seus primeiros versos. Após a derrota da Prússia por Napoleão em 1806, experimenta uma fase de solidão e conflitos, pois os românticos alemães - agora tomados de espírito nacionalista - passam a ver nele apenas o francês invasor. Depois de integrar o grupo de Mme. de Staël em Coppet, começa a dirigir seus interesses para as ciências naturais. Dedicado em especial à botânica, seus estudos na Universidade de Berlim são interrompidos devido aos tumultos da guerra contra Napoleão. Do desespero que dele então se apossa nasce a narrativa A espantosa história de Peter Schlemihl (1814).
Peter Schlemihl narra as desventuras de um rapaz pobre que, incautamente, entrega sua sombra em troca de um saquinho mágico, sempre repleto de moedas de ouro. A falta da sombra leva-o a perder o amor de sua vida: o pai da noiva, Mina, prefere casá-la com o ex-criado de Schlemihl, um homem rico (pois soubera encher seus bolsos às custas do patrão) e honrado (pois dotado de uma sombra, conforme impõem “o decoro e os bons costumes”). Frustrado em seu anseio amoroso e perseguido pelo povo da cidade, embora decidido a não entregar a alma para reaver sua antiga sombra, Schlemihl desfaz-se do saquinho mágico, mas, em contrapartida, o acaso lhe faz chegar às mãos botas de sete-léguas. Com elas, corre o mundo dedicando-se ao estudo de plantas e paisagens. Expulso da sociedade, que preferiu avaliá-lo não pelos bons sentimentos e intenções (elemento interior), mas pela ausência de um atributo convencional - a sombra (elemento exterior), Schlemihl termina seus dias solitário em meio à Natureza.
A marginalização de Schlemihl é um motivo que parece espelhar a vida do próprio Chamisso, mas devemos lembrar que na literatura romântica na Alemanha abundam os protagonistas que, solitários e incompreendidos, lançam-se pelo mundo afora. A viagem no romantismo alemão é, assim, um paradigma importante para expressar a incompatibilidade entre o poeta e seu público. Enquanto o romântico sonha com uma utópica Era Dourada em que a vida cotidiana tem espaço tanto para as atividades práticas como para as do espírito e do senso estético, o burguês comum mede sua felicidade pelo conforto e segurança materiais sem atentar para quaisquer outras necessidades que não utilitárias. Ao longo do Romantismo percebe-se, é bem verdade, uma transformação na forma de tratar a viagem: enquanto os intelectualizados membros do grupo de Jena tinham uma crença genuína (ou, pelo menos, a esperança) na possibilidade de aprimoramento do homem, na exeqüibilidade de uma harmonização entre os interesses do pequeno-burguês e deles próprios, enfim, na “vida na arte”, os românticos tardios em Berlim encaravam tal crença como uma quimera ou um castelo nas nuvens. Por detrás dessa visão mais cética está o dissabor da desilusão de quem entendeu haver barreiras intransponíveis entre comércio ou burocracia e arte. Os escritores de Berlim, como resultado dessa perspectiva, tratam com ironia e troça os mancebos que perseguem com os olhos o movimento amplo e livre das nuvens ou pintam em vivas cores o fascínio do longínquo horizonte.
Dentre os românticos de Jena, Novalis foi quem se notabilizou pela história do bardo medieval Ofterdingen que em sonho vê a flor azul e parte em sua procura (Heinrich von Ofterdingen, 1802). Atravessando diversas regiões da Alemanha, deparando-se com mercadores e mineiros, com cruzados e sarracenos escravos, Ofterdingen acaba encontrando em Mathilde - a alma da flor azul - a corporificação da poesia, da religião e do amor (sinônimos na visão de Novalis). Aqui, objeto e percurso da viagem encontram-se em um mundo simbólico, que certamente não dispensa os imperativos da vida concreta, mas que desdobra seu espaço e tempo para alcançar dimensões filosóficas, oníricas e míticas que projetam uma realidade pautada na fantasia, imaginação e intuição individuais.
Dando um salto para os últimos românticos, a viagem de um dos protagonistas de Joseph von Eichendorff começa com uma referência jocosa ao Ofterdingen: dessa vez, o sonho do rapaz não dá margem a elucubrações filosóficas, mas fornece o pretexto para que o pai expulse o “dorminhoco” que não serve para nada - uma característica que responde pelo apelido do personagem (Aus dem Leben eines Taugenichts [Da vida de um bom-para-nada], 1826). Taugenichts sai pelo mundo sem objetivo ou destino certos (ao contrário de Ofterdingen, movido por um ideal elevado); sua indolência e aversão ao trabalho impossibilitam que se fixe em algum lugar, forme uma família e comece a juntar dinheiro. Taugenichts é, por natureza, um vagabundo que adora contemplar as estrelas e sentir nas faces o frescor do vento, e que absolutamente é avesso a criar raízes, a aceitar responsabilidades. Embora reconheçamos nessa vida errante o mesmo espírito inquieto de Ofterdingen, a mesma ânsia de descobrir o mundo, de ver o novo, de dirigir-se rumo ao insondável, no Taugenichts estão colocadas questões que estão ausentes no primeiro livro: a necessidade de um ganha-pão, as diferenças entre classes, a respeitabilidade e honradez burguesas, conquistadas através do trabalho, da família, da rotina, da adaptação às convenções sociais. A índole do protagonista certamente abre-lhe os portões da fantasia e imaginação, entretanto, dessa vez não há como perder-se nos meandros de símbolos ou sonhos, dessa vez os personagens não encarnam ideais estéticos, mas são pessoas de carne e osso, dessa vez a busca não é pela poesia, mas pela sobrevivência. Enquanto Ofterdingen parte da perspectiva do poeta - daquele que se eleva acima das coisas materiais e busca o pleno desenvolvimento da mente e do espírito -, Taugenichts parte da perspectiva do povo, do homem comum, mas inspirado pelo sentimento de liberdade, de satisfação e, também, de poesia. Afinal, o texto de Eichendorff é inteiramente entremeado de versos: se Ofterdingen discute poesia, Taugenichts faz poesia!
E, na estética e no pensamento romântico, a poesia é entendida como algo dinâmico e em permanente devir. Ela também - a “poesia universal progressiva” de Fr. Schlegel (Fragmento 116 da Athenäum) - está a caminho, ruminando incansavelmente sobre seu próprio processo de elaboração e sua infindável germinação pois que se trata de uma poesia sempre aquém de sua finalização e de seu destino. Dessa forma, a peregrinação constante e interminável é intrínseca ao Romantismo enquanto princípio poético, estando também sempre presente enquanto motivo na narrativa. Na condição de motivo, o típico anseio romântico por tudo o que é inatingível adota a forma de atração pelo horizonte, pelo estrangeiro, pelos países distantes e exóticos. No topo da lista de tais lugares está a Itália e, por sinal, é para lá que rumam boa parte dos viajantes românticos (inclusive o Taugenichts).
Chamisso foi viajante em três sentidos: refugiado quando criança; poeta ao escrever o Schlemihl; e - o que aqui nos interessa - cientista (botânico) enquanto integrante da expedição comandada pelo Capitão Otto von Kotzebue do navio russo Rurik.
Após sua excursão pelo mundo nessa expedição (1815-1818), Chamisso encontrou na Alemanha a almejada fama e o reconhecimento de seus méritos, sendo eleito em 1835 membro da Academia de Ciências de Berlim por indicação de Alexander von Humboldt. Ele deu ao público vários relatos dessa jornada. Em 1821 foram editados os Comentários e opiniões sobre uma viagem de descoberta (Bemerkungen und Ansichten auf einer Entdeckungsreise), texto que inaugura em língua alemã a narrativa de viagem científica. Desgostoso com a editora – que deixou inúmeros erros de impressão que desfiguraram várias passagens, recusou-se a afixar uma errata e, por fim, impediu a edição de uma tradução francesa –, Chamisso publicou em 1835 a Viagem ao redor do mundo (Reise um die Welt) contendo um Diário de viagem além dos já mencionados Comentários e opiniões (agora em sua versão definitiva).
A jornada de Chamisso seguiu no rastro de outros viajantes alemães que o antecederam. Assim, Alexander von Humboldt viajou para a América do Sul em 1799 e aventurou-se pelo continente adentro, passando pela Amazônia em 1804. Seguiram-se Karl Friedrich Philipp von Martius, Hans Staden, Heinrich Koster, Ch. Fischer, entre outros. Esses pesquisadores divulgaram seus achados em diversas publicações.
Nessa época proliferavam fora da Alemanha as expedições científicas explorando paragens pouco conhecidas à cata de novas descobertas, e seus protagonistas não esquecem igualmente de fazer chegar ao público suas respectivas narrativas: Travels in the Interior of Africa (1799, de Mungo Park); Journal of a Voyage for the Discovery of a North-West Passage (1821, Sir William Edward Parry); Narrative of a Journey to the Polar Sea (1823, John Franklin); Journal of a Second Expedition to the Polar Sea (1823, Sir John Franklin); Narrative of an Attempt to Reach the North Pole (1828, Sir William Edward Parry), etc.
Chamisso conhecia essa literatura e essas viagens e admirava os exploradores que as encabeçavam. Por isso, quando esteve de passagem por Hamburgo antes de embarcar no Rurik e foi confundido com Mungo Park, não esconde o orgulho e lisonja que o incidente lhe despertou[1]. Além disso, ao longo de toda a sua narrativa, ele recorre a informações extraídas dessa literatura escrita por viageiros em missão científica - por exemplo, ao passar pelas ilhas do sul do Chile e por Santiago[2], descreve a população local em função do que lera em Mungo Park, e comenta a possibilidade da existência no lugar de vulcões a partir das anotações de Cook; da mesma forma, compara as observações registradas por Alexander von Humboldt e as suas próprias quanto a um fenômeno no mar: o brilho causado pelo choque entre o navio e minúsculas partículas inorgânicas[3].
Esses conhecimentos preliminares certamente foram importantes para compensar as dificuldades de comunicação, a falta de acomodações adequadas e de condições favoráveis de pesquisa e armazenamento do material coletado que teve de suportar durante sua jornada pelos mares e continentes. Antes mesmo da partida já começaram os infortúnios: como Chamisso sequer recebeu indicações claras quanto aos objetivos da viagem ou os portos em que o navio atracaria, não pôde esboçar de antemão quaisquer planos de investigação. Depois de içada a âncora, ficou claro o clima de tensão entre ele e o capitão, o qual, sentindo sua autoridade e ascendência ameaçadas pela presença do cientista, declara-lhe que o tratará como um passageiro, cuja presença não era esperada nem receberá quaisquer prerrogativas[4].
De fato, diversas facilidades são negadas ao botânico. Um exemplo é o desenhista de bordo: supostamente ele foi contratado para executar as pinturas e desenhos estipulados pelo cientista; o homem, porém, recusa quaisquer instruções de Chamisso alegando que somente aceita ordens do capitão. Outro exemplo: só há uma mesa a bordo, utilizada para as refeições; nos intervalos, ela é ocupada pelo desenhista e pelos oficiais, de modo que é somente quando estes a deixam livre que os demais - entre eles Chamisso - podem correr e apressadamente fazer uso dela. Em tais condições Chamisso afirma que não consegue trabalhar. O pior dos entraves é a displicência com o material coletado pelo botânico: no Brasil, por exemplo, ele coletou vários exemplares de espécies de algas e, tendo recebido autorização para isso, deixou-os secando no cesto da gávea; durante uma limpeza do navio eles simplesmente foram jogados ao mar, restando ao cientista apenas a folha de uma única espécie[5]. Toda a coleta fora em vão.
Segundo Chamisso, esse embate entre capitão e cientista é algo que naturalmente emerge nas condições - muito peculiares - do cotidiano num navio, onde autoridade e disciplina são indispensáveis para o cumprimento das obrigações e tarefas, bem como para estabelecer as regras da convivência diária. Nosso autor relata que, para resolver tal situação, Inglaterra e França apenas organizam expedições científicas em que todos os participantes são estudiosos. Nos navios mercantes norte-americanos, igualmente, o comando do navio é executado pelo próprio comerciante, dono da mercadoria transportada.
Para Chamisso foi difícil adaptar-se a essas circunstâncias, que haveriam de perdurar por três anos: o espaço apertado da “Nußschale”[6]; o tremendo sentimento de solidão (durante as refeições, por exemplo, os oficiais à mesa falavam apenas russo e não se preocupavam em integrá-lo na conversa); o tédio de (por dois terços do tempo) só ter para olhar ou o azul do mar ou o azul do céu; os sinais visíveis de que a sua presença era incômoda e importuna. Esse ambiente aliou isolamento e falta de privacidade, repetição de rotinas (a bordo) e surpresas inopinadas (nas terras visitadas), a alegria do achado (coleta de espécimens) e a frustração pela sua perda ou acomodação inadequada no navio. Além desses inconvenientes, a viagem foi acompanhada de todos os ingredientes típicos da situação: enjôo no mar, tempestades, um cozinheiro insistindo sempre no mesmo prato, uma banda de música composta pelos próprios tripulantes, pássaros como anúncio de terra próxima, golfinhos e outros habitantes marítimos, vento e estrelas.
Com essas condições de viagem teve que se conformar o cientista e poeta Chamisso. Aliás, ao que tudo indica, o projeto de correr o mundo brotara há muito de um sonho infantil, de uma inspiração mais poética do que científica, conforme relembra o autor:
Durante minha infância Cook havia erguido o reposteiro que ocultava um mundo ainda sedutoramente fabuloso, e eu não conseguia imaginar esse homem extraordinário senão em um clarão semelhante talvez àquele em que Dante viu surgir seu antepassado Cacciaguida no quinto céu.[7]
Essa presença furtiva mas constante do elemento mágico deixa suas marcas no texto de Chamisso. Abdicando do estilo seco que seria de esperar de um cientista, o autor busca uma escrita objetiva e fluente, que volta e meia é entrecortada por trechos ou expressões prenhes de poesia:
O mar em um golfo, sem preamar e vazante, e em cuja superfície lisa e espelhada a terra derrama seu verde manto, não possui a grandiosidade do oceano.[8]
Essa Natureza que transpira tanto um espírito antropomórfico como um halo de encantamento, não saiu da pena do botânico, mas da subjetividade do romântico. Da autoria do cientista são as identificações geográficas precisas e os nomes científicos de plantas e animais:
Tivemos nos dias seguintes freqüentes calmarias alternando com rajadas de vento, e alcançamos em 4 de maio, perto de 7º 30’ latitude sul, a verdadeira monção noroeste. Nos dias subseqüentes avistamos muitos pássaros marítimos voando, de manhã contra o vento, no crepúsculo junto com o vento. A pequena andorinha do mar (Sterna stolida) repetidas vezes deixou-se aprisionar no navio e nós soltamos várias com um colar de pergaminho levando o nome do navio e a data.[9]
A curiosidade e o empenho de Chamisso em perscrutar as localidades não foram em vão. Dentre as suas descobertas está uma espécie vegetal da qual coletou um exemplar em Plymouth e que ainda era desconhecida[10]. Seu faro ainda o levou a aconselhar ao capitão a aproximar-se da calota polar da Antártida, uma sugestão que, tivesse sido seguida, talvez roubasse de William Smith a honra de descobrir as Ilhas Shetland do Sul dois anos mais tarde[11].
A curiosidade de Chamisso, porém, daria lugar ao mais puro estonteamento ao contemplar a paisagem brasileira. Em 12 de dezembro de 1815 às 16 horas o Rurik ancorou em Santa Catarina, nas proximidades do Forte de Santa Cruz. As primeiras palavras do autor já deixam claro o impacto que a nova paisagem lhe causou:
Eu, um viajante fugaz, que somente pousou um pé neste país para sobressaltar-se com a colossal opulência vicejante da Natureza orgânica que o cobre, não irei me atrever a proferir qualquer ensinamento acerca do Brasil. Apenas desejo transmitir aos amigos a impressão que me causou, que guardo comigo; mas mesmo aí faltam-me as palavras.[12]
Chamisso desembarca na manhã seguinte, 13 de dezembro, e acompanha o capitão até a cidade de Nostra [sic] Senhora do Desterro (atual Florianópolis). Ele pouco se ocupa dos homens (chega mesmo a afirmar que não guarda recordação alguma deles); seu interesse parece cativo da paisagem natural. Chamisso menciona a chuva que caía fora de estação (que seria setembro), lamentando que ela dificultava a coleta de amostras (que precisariam secar para conservar-se).
Sentindo-se imerso em Natureza virgem, o botânico não se cansa de falar da abundância e do tamanho gigantesco da vegetação. Quando fala das plantações agrícolas, arrola as laranjeiras, café, bananas, algodão, melão e hortaliças. No ambiente agreste, cita orquídeas, avencas, bromélias, parasitas, cactus. As árvores, a seu ver, são de todos os tipos imagináveis. Menção especial cabe à palmeira (Cocos Ramanzoffiana M.), cujo talhe esbelto e movido pelo vento parece encantá-lo especialmente. As imensas planícies e montanhas cobertas pela floresta, os rios caudalosos que a atravessam, os pântanos inacessíveis, a areia, e as incontáveis espécies de animais que habitam por toda parte - tudo parece captado com êxtase pelo europeu.
Chamisso não deixa, porém, de comentar outros tópicos que lhe chamaram a atenção. Afirma que o comércio de escravos estava a pleno vapor: o governo de Santa Catarina recebia de 5 a 7 navios negreiros (oriundos do Congo e de Moçambique) por ano, um contingente destinado a substituir os escravos que pereciam no trabalho das lavouras. O alemão deplora o costume de “rapidamente consumir toda a energia de um ser humano e [então] substituí-lo por meio de uma nova aquisição”[13]. Especialmente dolorosa foi-lhe a visão dos escravos trabalhando em moinhos, onde descascavam arroz com pesados bordões enquanto entoavam de forma peculiar um canto lamentoso. O comentário rápido e singelo de que tal trabalho pesado e oprimente na Europa é conferido ao vento, à água e ao vapor deixa transparecer claramente sua indignação perante as práticas que teve diante dos olhos.
Chamisso ainda comenta a pesca de baleias, para as quais havia a “armação”, um barco de propriedade da Coroa específico para esse fim. Sua tripulação era composta de seis remadores, um timoneiro e um arpoador. Em Santa Catarina havia quatro dessas embarcações, que eram ativadas nos meses de inverno, cada qual conseguindo capturar umas cem baleias na estação.
Em uma carta que enviou do Brasil para a Alemanha, Chamisso registrou, além das novidades acima, ainda uma descoberta literária. Lendo a Noiva de Corinto, de Goethe - segundo Chamisso “uma jóia da literatura alemã e européia” -, ele descobriu que o quarto verso da quarta estrofe tem uma silaba a mais do que deveria. Esta descoberta também era inédita!
Saindo do Brasil, a rota do Rurik ainda faria Chamisso atravessar oceanos, ilhas, continentes, transformando em realidade o que, no Schlemihl fora apenas realização poética. Com apenas 3 anos de estudos em botânica antes de subir ao Rurik, o literato realizou façanhas científicas que lhe valeram a já mencionada eleição como membro da Academia de Ciências de Berlim, além de outras distinções: em 1838, pouco antes de falecer, viu publicados o seu estudo sobre a língua do Havaí, além da primeira edição de suas obras em 4 volumes.
Resgatar as contribuições de Chamisso à ciência é assunto bem mais amplo do que pode ser desenvolvido aqui. Afinal, o objetivo aqui foi mostrar que Chamisso foi, sim, um romântico criador de contos de fadas, mas sua produção enquanto literato e pensador não lhe fechou os olhos para o mundo e a realidade. Ao contrário, seus escritos contêm tesouros que ainda aguardam estudos mais aprofundados e o devido reconhecimento.
CHAMISSO, Adelbert von. Peter Schlemihls wundersame Geschichte. In: ___. Chamissos Werke. Ed. por Heinrich Kurz. Leipzig / Wien: Bibliographisches Institut, 1899a. (Meyers Klassiker-Ausgaben). v. 1, p. 405-461.
CHAMISSO, Adelbert von. Reise um die Welt mit der Romanzoffischen Entdeckungs-Expedition in den Jahren 1815-1818 auf der Brigg, Kapitän Otto von Kotzebue (Teil 1: Tagebuch; Teil 2: Bemerkungen und Ansichten). In: ___. Chamissos Werke. Ed. por Heinrich Kurz. Leipzig / Wien: Bibliographisches Institut, 1899b. (Meyers Klassiker-Ausgaben). v. 2.
KRONER, Peter A. Adelbert von Chamisso. In: WIESE, Benno von (Ed.). Deutsche Dichter der Romantik. Ihr Leben und Werk. Berlim: Erich Schmidt Verlag, 1971. p. 371-390.
LUTZ, Bernd (Ed.). Metzler Autoren Lexikon. Stuttgart: J. B. Metzler, 1986.
SOUSA, Celeste H. M. Ribeiro de. O Brasil na obra de Goethe. forum deutsch; Revista brasileira de estudos germânicos. Rio de Janeiro (UFRJ), n. 1, v. 4, p. 26-44, 2000.
[1]CHAMISSO, Adelbert von. Reise um die Welt mit der Romanzoffischen Entdeckungs-Expedition in den Jahren 1815-1818 auf der Brigg, Kapitän Otto von Kotzebue (Teil 1: Tagebuch; Teil 2: Bemerkungen und Ansichten). In: ___. Chamissos Werke. Ed. por Heinrich Kurz. Leipzig / Wien: Bibliographisches Institut, 1899b. (Meyers Klassiker-Ausgaben). v. 2. p. 15.
[2] Idem, p. 42-43.
[3] Idem, p.37-38.
[4] Idem, p.23-24.
[5] Idem, p.53.
[6] Idem, p.19.
[7] Idem, p.8.
“In meiner Kindheit hatte Cook den Vorhang weggehoben, der eine noch märchenhaft lockende Welt verbarg, und ich konnte mir den außerordentlichen Mann nicht anders denken, als in einem Lichtscheine, wie etwa dem Dante sein Urahnherr Cacciaguida im fünften Himmel erschien.”
[8] Idem, p.16.
“Ein Binnenmeer ohne Ebbe und Flut, in dessen glatten Spiegelfläche das grüne Kleid der Erde hinabtaucht, hat das Großartige des Ozeans nicht.”
[9]Idem, p. 75-76.
“Wir hatten in den nächsten Tagen häufige Windstillen mit Windstößen abwechselnd, und erreichten am 4. Mai, beiläufig unter 7º 30‘ S. B., den wirklichen N. O. Passat. Wir sahen in den folgenden Tagen viele Seevögel Morgens dem Wind entgegen, bei Sonnenuntergang mit dem Winde fliegen. Die kleine Seeschwalbe (Sterna stolida) ließ sich wiederholt auf dem Schiffe fangen und wir entließen etliche, denen wir auf pergamentnem Halsbande den Namen des Schiffes und das Datum mitgaben.”
[10] Idem, p.26.
[11] Idem, p.52.
[12]Idem, p. 45.
Ich werde nicht, ein flüchtiger Reisender, der ich auf dieses Land gleichsam nur den Fuß gesetzt habe, um vor der riesenhaft wuchernden Fülle der organischen Natur auf ihm zu erschrecken, mir anmaßen, irgend etwas Belehrendes über Brasilien sagen zu wollen. Nur den Eindruck, den es auf mich gemacht, den es in mir zurückgelassen hat, möchte ich den Freunden mitteilen; aber auch da fehlen mir die Worte.
[13] Idem, p.49.